|

Sentimento de Pertencimento
Podemos viver sem nossas raízes? O ser humano vive sem
o sentimento de pertencimento?
Por 20 anos ela vem sentindo um estranho vazio. Não
entende por quê. É amada, tem conforto, boas roupas,
bons colégios. Nada lhe falta. Sabe que é filha
adotiva, mas isto não faz diferença. Mas por que
não se sente feliz?
A identidade é construída através da socialização,
das interações contínuas e garantida pela
individualização. Na trajetória individual,
passado e presente estabelecem elos e a condição
de amadurecimento do indivíduo ocorre através dos
vínculos. O primeiro vínculo amoroso surge quando
mãe e bebê se relacionam como um único ser.
Ela desconhece parte da sua história. Sabe que aos seis
meses foi adotada. Seu relacionamento primário foi comprometido
e não sabia que o seu sentimento atual era o de abandono.
Muitas vezes "os fantasmas" amargam a vida.
Esta e muitas outras histórias de vida trazem as marcas
da complexidade do indivíduo e vêm se agravando na
sociedade globalizada. Por mais paradoxal que possa ser, o indivíduo
está cada vez mais só. O individualismo exacerbado
resulta numa comunicação precária, uma vez
que não se olha mais para o outro.
As perdas e os sentimentos de abandono da infância, quando
mal elaborados, agravam-se na vida adulta, pois emergem do inconsciente
e são re- vividos, principalmente nas relações
íntimas. Hoje, há uma necessidade extrema de destaque
e isso impulsiona cada vez mais à competitividade. Corre-se
atrás do conhecimento específico e vive-se no automatismo.
Busca-se a liberação dos sofrimentos no consumo,
mas o desconforto ali permanece.
É cada vez mais constante a busca da felicidade associada
aos bens de consumo. Assim, o contexto se fecha para a comunicação
e conseqüentemente para as relações. No entanto,
o senso de pertencimento só ocorre quando as relações
se aprofundam. A saúde mental está relacionada ao
reconhecer e ser reconhecido. È vital ser parte de um todo
maior, que acolhe e protege.
Norma Emiliano
|