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A
RELAÇÃO MÃE E FILHA
“Não
é a criança que vem ao mundo, mas sim o mundo que vem para a criança.
Nascer é receber de presente o mundo inteiro.” Jostein Gaader
Num tempo
sem planejamento, ela se anuncia. Sentimentos contraditórios dominam
o ser despreparado para tal revelação.
O momento da gestação é o milagre da criação. O universo intra-uterino
é a primeira conexão do ser humano. É o local no qual as primeiras
percepções aparecem. Assim, mãe e filho ficam ligados. Tudo o
que a mãe sente, pensa e fala é transmitido ao feto. Contudo,
a influência do contexto familiar já se faz sentir. A figura paterna
também já é percebida através da interação do casal.
A gestação foi passo a passo acompanhada, sendo superados os momentos
de inquietações. Tudo preparado, do berço às mamadeiras. O nascimento
da menina foi celebrado, mas ao mesmo tempo, temido. A imaturidade
para assumir o lugar de cuidadora, somada à fragilidade causada
pelo parto traumático, a ausência do companheiro, que viajou a
trabalho, repercutiram em sua estrutura emocional levando - a
a depressão. Não tinha vontade de pegá-la, amamentá-la. Sentia
- se distante e, ao mesmo tempo, abandonada por aquele que ansiava
estar ao seu lado, seu companheiro. Deste primeiro triângulo emerge
um padrão relacional.
A menina desenvolve – se, tratada com atenção e carinho, mas não
deixava de ser um ponto de tensão para o casal ou para o vínculo
mãe e filha. A mulher não se conformava de ter que ficar quando
ele se ia. A vontade de estar com ele superava o amor filial.
Irritava-se, entristecia-se. Não existiam palavras, mas os gestos
denunciam os sentimentos.
No desnovelar do tempo, a menina transformou-se em mulher. Era
muito ligada a mãe, mas não sabia compartilhar do cotidiano. Sempre
muito irritadiça, com pouca tolerância e um grande “buraco emocional”.
Nenhum homem conseguia preenchê-lo. Com todos atraía discórdias,
o que aumentava a sua irritabilidade.
No túnel do tempo, a emoção encontra - se congelada nos vínculos
intra-uterino e reforçada pelas relações interpessoais. Na continuidade
do tempo, talvez, na maternidade, surja um novo olhar e a possibilidade
de se encontrar e reencontrar a afetividade construída entre mãe
e filha. “Toda mãe contém a filha em si mesma e toda filha, a
mãe; toda mulher projeta- se para trás estendendo-se na mãe e
para frente na filha.” Jung. Portanto, ao se criar um novo triângulo
amoroso, talvez a possibilidade de desfazer os nós e lançar sementes,
num campo mais fértil que possam transformar os futuros vínculos
familiares.
No mito das deusas Demeter e Perséfone ( mãe e filha), Perséfone
era o grão semeado, colocado embaixo da terra para se desenvolver
e despontar durante a primavera sob a forma de novos frutos. “Por
conselho de Zeus, o filho de Cronos, raptou Perséfone para longe
com seus imortais cavalos, contra a sua vontade. Assim enquanto
a deusa lançava o olhar sobre a terra e o céu estrelado e as correntes
do mar transbordantes de peixes e os raios do Sol, desejando ver
ainda sua mãe amantíssima e as linhagens de deuses imortais, a
esperança acalmou seu grande coração apesar de todo o sofrimento.”
Norma
Emiliano
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