Solidão a dois

Simplesmente um dia, eles param de se tocar com as mãos e também com palavras.

Os dias custam a passar; a ansiedade é grande! O desejo de ver, de ouvir e de tocar surge, tomando conta do ser. Essas são as sensações e manifestações daqueles que se sentem apaixonados.
O encontro a dois é uma das metas da maior parte dos seres humanos ou porque não dizer de todos. Idealiza-se a felicidade como parte maior desse encontro. No desnovelar e entrelaçar dos fios que tecem os relacionamentos surgem rupturas que parecem inexplicáveis diante de tantas emoções, trocas de carinhos e projetos. No entanto, certo dia um dos parceiros se pergunta: onde nos perdemos?
- Eu estou indo embora, ela diz. Ele conforme estava, ficou. Ela repete:
- Estou indo embora, embora para sempre. Ele se vira e diz:
- Não entendi, por que você vai embora?
A rotina da vida, os filhos, trabalhos, famílias de origem e muitas outras demandas ou compromissos fazem parte do cotidiano da vida a dois. Em algum momento um deixa de olhar para o outro, perceber seus sentimentos e desejos, de ouvir e ser ouvido. Um profundo silêncio se estabelece. Entram e saem do espaço em comum com leves beijos automatizados.
Quando os filhos ainda requerem muitos cuidados, os assuntos giram em torno deles. Os filhos alimentam a relação. No entanto, quando o "ninho" começa a ficar vazio os assuntos também se esvaziam. A inércia toma conta e o distanciamento se instala.
"Solidão a dois vicia" já cantava Cazuza.
Como se dar conta de que a indiferença é a maior força que os une? Quando os momentos prazerosos deixaram de existir e a ausência do outro não mais foi sentida?
No jardim as flores brotam e enchem de cor os canteiros. No cuidar diário, o jardineiro tem inteira dedicação, observa os mínimos detalhes que possam danificar o terreno fértil, na certeza que os frutos virão.
A atenção, admiração, expressão do afeto e, principalmente, reciprocidade formam a base sólida na relação. Mas o que fazer depois que se instala a solidão a dois?

Norma Emiliano